Bicentenário da Ordenação de São Vicente Pallotti

PADRE VICENTE PALLOTTI

 

INSTRUMENTO DA MISERICÓRDIA, DA CARIDADE e da DEVOÇÃO MARIANA

 

INSTRUMENTO DA MISERICÓRDIA

Estamos celebrando o bicentenário de ordenação presbiteral de São Vicente Pallotti. Uma data para rendermos graças a Deus pelos abundantes frutos do ministério sacerdotal de São Vicente que, até hoje, recebemos. Um momento para proclamarmos o maravilhoso dom da misericórdia tão urgente numa cultura marcada pela violência e pelo ódio.

Ser padre é uma vocação divina, um chamado de Deus em vista de uma missão na Igreja e com a Igreja para a santificação da humanidade. O ser padre se concretiza nas diversas circunstâncias, e sua realização depende do contexto histórico no qual cada um se encontra. No entanto, algumas ações são comuns e não mudam com o contexto, por exemplo, a reconciliação mediante o sacramento. Tenho a convicção de que a Reconciliação é uma das grandes realizações do ser padre. Conhecer o pecado das pessoas e ajudá-
las a encontrar-se com a Misericórdia (Deus mesmo) possibilita ao sacerdote uma experiência única que é ser outro Cristo no mundo.

São Vicente Pallotti foi um grande confessor e diretor espiritual. Conheceu a pessoa humana por dentro, como fez o próprio Cristo (Jo 2,25). Pallotti não fugiu desse desafio que é se defrontar com as limitações e as misérias para se encontrar com Deus Amor. A redescoberta de um São Vicente como mestre da reconciliação é hoje imprescindível para a cultura em que vivemos. A violência que assola as famílias, ambientes de trabalho, escolas, o mundo da política e dos interesses internacionais nos mostra que a vida humana é um grito pela misericórdia, um grito pela reconciliação.

O sacerdócio de São Vicente a serviço da Reconciliação foi uma verdadeira opção pelos pobres.
O padre que se coloca a ouvir o seu povo é capaz de entrar em sintonia com suas necessidades materiais e espirituais, compreender a alma humana, aliviar o peso dos sofrimentos do cotidiano, reconhecer que ninguém está definitivamente concluído, mas estamos todos a caminho da perfeição que encontra, em Cristo, sua realização.

O sacramento da Reconciliação é de um realismo capaz de colocar o ser humano diante da verdade sobre si. Reconhecer os erros e as limitações pode ser vergonhoso e humilhante, “mas quem se humilha será exaltado” pelo Deus Misericórdia. Sem se defrontar com a verdade, a pessoa continuará no mundo da fantasia e não experimentará a alegria de ser perdoada e amada. Somente a verdade liberta e garante um novo sentido para a existência. Sim, é difícil, mas é o caminho, o método de que Deus se utiliza e temos que olhar os resultados do processo de busca em se adequar sempre à verdade. Todavia, o próprio Cristo é também o caminho (Jo 14, 6), ou seja, a via não é um instrumento, mas uma Pessoa.

São Vicente Pallotti foi verdadeiro consigo e com as pessoas, pois sabia que a mentira leva à falta de realismo que produz fantasmas interiores. O Sacramento da Reconciliação é a abertura da consciência a Deus por intermédio da Igreja (o confessor). Deus, conhecendo a criatura que possui sua imagem e semelhança, sabe que precisamos falar de nossas misérias com alguém, tendo em vista a libertação das amarras que aprisionam a alma humana para que possa voar mais alto. A alma reconciliada produz frutos de caridade ao próximo porque o primeiro mandamento é amar a Deus Misericórdia acima de todas as coisas.

O bicentenário de ordenação de São Vicente Pallotti nos ensina que o Santo Confessor é um exemplo de vida cristã para o momento em que vivemos. A reconciliação sacramental, o estar diante da verdade sobre si, falar das próprias limitações para abrir-se à caridade e à paz com profundo engajamento na realidade familiar e social são sinais de um cristão que transmite a cultura da paz.

 

INSTRUMENTO DA CARIDADE

As obras de caridade na vida de São Vicente Pallotti manifestam sua total união com Deus e seu serviço aos pobres. O Papa Francisco nos exorta continuamente para que sejamos uma Igreja em saída. Essa condição de Igreja em saída tira-nos de dentro da Igreja (o templo material) e leva-nos para a realidade que nos circunda, proporcionando um conhecimento da política local, da situação das famílias e dos problemas sociais do bairro no qual vivemos. Sair significa conhecer o ser humano, significa reconhecer que o mundo é maior que a nossa própria vida e que nossos problemas pessoais estão dentro de um contexto mais amplo que o do privado. Se São Vicente Pallotti não saísse de si em direção a Deus e ao próximo, ele jamais teria realizado a experiência de ser tudo para todos. Incansável, ele andava por todas as partes da cidade de Roma, nas diversas associações, orientando retiros, organizando missões populares, oferecendo atendimento aos padres e seminaristas; foi também presente na vida das consagradas, estudou as Escrituras e as ciências, mas, principalmente, ele saiu do egoísmo que amarra para tornar-se próximo aos pobres.

Esse movimento de sair de si e encontrar-se com a realidade que a circunda, faz com que a Igreja ofereça uma resposta de fé ao que encontrou. Não pode ser apenas uma resposta sociológica, mas motivada pela fé, a Igreja em saída realiza sua vocação de discípula-missionária, de Esposa do Senhor e que deseja ser fiel ao seu Deus, seu Esposo, Jesus Cristo. A resposta da Igreja ao ser humano de hoje é também uma resposta aos problemas sociais que nos circundam que, a partir da fé, não produz um fechamento da mente, mas uma sadia abertura ao mundo.

No entanto, para que a resposta de fé perdure no tempo, seja eficaz e constante, São Vicente Pallotti formou uma associação para a qual chamou a todos para o apostolado. Essa associação é a União do Apostolado Católico (UAC), sendo que os padres e os irmãos palotinos e as irmãs palotinas representam sua força motriz. Ora como associação, essa instituição, que nasceu de um movimento de saída da Igreja em direção à realidade e produziu uma resposta fundamentada na fé, é amparada por um estatuto reconhecido pela Igreja e pode também ser reconhecido pela sociedade civil. A finalidade da UAC é produzir frutos de caridade para o ser humano de hoje e em seu contexto histórico-social, e não viver somente dentro dos muros da Igreja.

A vocação da UAC é ser uma Igreja em saída e em resposta aos apelos do presente para que a Boa Nova não seja algo antiquado, mas tenha muito a dizer ao ser humano de hoje. A promoção e o desenvolvimento da UAC como um eficaz instrumento eclesial de caridade é, na realidade, a atualização daquilo que foi São Vicente Pallotti para o seu tempo, um instrumento de caridade. O mandato de Jesus Cristo: “Ide por todo mundo, pregai o Evangelho a toda criatura” (Marcos 16, 15) continua atual, e a família palotina tem a alegria de responder a esse compromisso, seja diante de Deus, seja diante de cada ser humano com prontidão e constância. Se nossa resposta fosse apenas com ações esporádicas e momentâneas, não estaríamos colocando em prática o carisma de São Vicente Pallotti como instrumento permanente da caridade.

Sabemos que as circunstâncias do mundo e da Igreja em que o sacerdote Vincenzo Pallotti viveu, em comparação com as circunstâncias de hoje, mudaram enormemente. No entanto, o seu testemunho de seguimento do Cristo permanece válido e atualizado. Também hoje as pessoas sentem uma sede de Deus, um desejo de ver Deus que existe nas profundezas do coração humano, uma vontade de falar com Ele e ser amado por Ele. O exemplo de São Vicente Pallotti, profundamente contemplativo e apostólico, conduz-nos como discípulos-missionários de uma Igreja em saída e motivada pela fé, para que produza frutos de caridade que perdurem na história, mediante a formação associativa para o apostolado.

São Vicente, devotíssimo de Maria, mostra que o apostolado da misericórdia é fecundo quando unido a Maria, modelo perfeito de Igreja e de discípula- missionária. Maria, em meio aos apóstolos no dia de Pentecostes, dá-nos a certeza de que nossa saída ao mundo será sempre acompanhada pelo Espírito Santo e, por isso, sempre estaremos perto dos pobres. Que Maria nos ajude a descobrir o grande apostolado sacerdotal que exerceu São Vicente Pallotti no Sacramento da Reconciliação, na direção espiritual e nas obras apostólicas que a UAC é chamada a realizar como instrumento de misericórdia e de caridade.

Pe. Denilson Geraldo, SAC

 

INSTRUMENTO DA DEVOÇÃO MARIANA

Na continuidade das reflexões motivadas pelo bicentenário da ordenação sacerdotal de São Vicente Pallotti, vou me deter em um aspecto significativo da vida e da atividade apostólica dele, a saber, a sua filial, terna e apaixonada veneração a Maria Santíssima. “Grande devoto de Nossa Senhora, ele desejava amá-la infinitamente, se fosse possível, dar-Lhe os títulos mais belos, amá-La com o amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Iluminados por este trecho da homilia pronunciada por São João Paulo II, na ocasião em que celebrou a Eucaristia, na Igreja romana de São Salvador da Onda, centro espiritual da fundação palotina, queremos ocupar-nos do ministério sacerdotal de São Vicente Pallotti e sua devoção mariana.

Apoiando-nos nos ombros de gigantes, nós, que somos pequenos, podemos desnudar horizontes mais distantes e amplos, como nos ensina uma famosa e antiga máxima. Nesta breve reflexão, não será diferente. Contudo, muito distante está o nosso esforço da acuidade destes grandes homens, de modo que o ponto de partida se deu com leituras de grandes autores palotinos, como o Pe. João Batista Quaini, SAC, de saudosa memória, Pe. Jacob Nampudakam, SAC, o próprio São Vicente Pallotti e tantos outros grandes sacerdotes e consagrados que, pelos seus escritos e palavras, ajudaram-nos na inspiração e na fundamentação desta pequena contribuição.

São Vicente Pallotti, por meio de seus escritos, ensina-nos que há uma estreita relação entre o reto exercício do ministério sacerdotal e a devoção mariana. Para nosso fundador, Maria era Mãe, Mestra e Advogada, contudo é a imagem de Maria como Mestra da vida espiritual que desempenha um papel fundamental em sua vida sacerdotal. A mestra da escuta, do silêncio e da oração estava ali presente no Cenáculo, como nos recorda o Padre Geral dos palotinos, Jacob Nampudakam. Naquele momento crucial para a Igreja nascente, ela confortou e encorajou os apóstolos que haviam deixado que o desespero e o medo trancassem as portas de seu coração. Trancadas também estavam as portas daquela “sala de cima”, onde eles ainda podiam sentir-se seguros, à sombra da lembrança dos fatos que ali presenciaram.

Em Pentecostes, a Virgem Santíssima, como esposa diletíssima do Espírito Santo, abre as portas dos corações dos Apóstolos, para que estes passem de discípulos amedrontados a pregadores intrépidos da boa nova do Reino! O mesmo deseja ela hoje aos seus filhos prediletos, os presbíteros: “Vede, filhos, o Pregador do Evangelho deve ser como trovão de Deus, que salutarmente comove os corações dos infelizes escravos do pecado” (São Vicente Pallotti – “Mês de Maio para Eclesiásticos”). E aos sacerdotes que se perderam em meio a questionamentos e crises, Pallotti se dirige por meio de Maria, dizendo: “Acaso duvidais da vocação divina? Não fiqueis apavorados, filhos meus! Sabeis bem o que deveis fazer para remediar, mas estais com medo porque nunca vos empenhastes, pra valer, em corrigir-vos? Mesmo assim, alegrai-vos! Pois, agora chegou o tempo, este é o momento! Porque já não tereis coragem de resistir à voz do Pai das Misericórdias e aos remorsos da consciência. Dai-me vosso coração rebelde! Desligai-o de todo laço terreno, que miseravelmente vos levou até agora a resistir à graça e impediu que vos entregásseis inteiramente a Deus, para corrigir todas as desordens” (São Vicente Pallotti – “Mês de Maio para Eclesiásticos”).

Como se vê, é em sua obra o “Mês de maio para os eclesiásticos”, que São Vicente Pallotti melhor expõe os seus ensinamentos sobre a importância da presença de Maria Santíssima na vida sacerdotal. Fazendo-o de forma singular, Vicente Pallotti põe na boca de Maria, a Mãe de todos os sacerdotes, ensinamentos salutares aos que são chamados a tal estado sublime. Todo sacerdote deve, portanto, deixar-se tocar de forma profunda pela devoção à “Mãe de Deus e nossa”. São Vicente Pallotti, de forma muito lúcida e sóbria, esclarece no que consiste a verdadeira devoção à Virgem Maria, a saber: imitar seu Filho Jesus Cristo e dela aprender esta imitação. Por isso, imitar a Maria Santíssima, que é pura transparência de seu Filho, é o melhor modo de imitar a Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, o Apóstolo do Eterno Pai (leia mais na página 26).

O Padre Geral, em seu pequeno livro sobre “O Espírito sacerdotal segundo São Vicente Pallotti”, aponta que, na escola de Maria, o sacerdote deve aprender, como ensina Pallotti: a imitar a obediência da filha amadíssima do Eterno Pai, no cumprimento da sua vocação; a fecundidade espiritual da Mãe do Verbo Encarnado, e assim multiplicar os filhos da Igreja; e a fidelidade da enamoradíssima Esposa do Espírito Santo, em seu sagrado ministério. O Padre Jacob Nampudakam ainda recorda que, aos sacerdotes, a Virgem Maria prometeu proteger e auxiliar em seu ministério, bem como fez na vida de São Vicente, de modo a despertar, nestes mesmos corações sacerdotais, a confiança e a entrega total. Assim, sob a proteção da Rainha dos Apóstolos, alcancem os sacerdotes, por sua intercessão materna, a graça de exercerem um digno ministério, dispostos a dar a vida pela Glória de Deus e a salvação das almas.

Frater José Luiz Alves da Silva Junior, SAC