“Esta Mínima Congregação será abençoada”, inquieta padre Miszewski

                               “Esta Mínima Congregação será abençoada (Pallotti)”.

Esta garantia de benção intercessora de Pallotti me inquieta. Não porque não acredite nela. O que me inquieta é a nossa ação passiva senão negligente. Menosprezamos ou descuramos da Promoção Vocacional.  A equipe de Promoção Vocacional formada por: Padres Palotinos, Irmãs Palotinas e Paulinas e de Irmãos Lassalistas, que visitava anualmente mais de 60 Colégios no Paraná, por mais de 30 anos de sala em sala, sempre bem acolhida pelas Escolas, Direção, Professores e alunos: nossos grandes parceiros. Depois, orientando os vocacionados e visitando suas famílias, foi dissolvida. Aproximadamente 80 Colégios visitados (somando os de Mato Grosso do Sul), e a maioria destes Colégios se localizavam em Paróquias não confiadas aos Palotinos. E, o novo modelo proposto: qual resultado está tendo?  O nosso Geral, Pe. Jacob Nampudakam na carta nós dirigida após sua última visita à nossa Província dizia da inquestionável presença duma equipe de coordenação dos empenhos vocacionais dos confrades. Abandonamos tantos campos, sem dúvida, ricos de vocacionados e ricos de possíveis no futuro. Alega-se que os tempos mudaram. Os tempos mudam, mas os lugares continuam os mesmos e sempre receptivos; e estes lugares nós os abandonamos.

No dia mundial de Orações pelas Vocações, o Papa João Paulo II, reunido com Religiosos, Religiosas, Sacerdotes Religiosos e Diocesanos ou Seculares, ouviu atentamente as sériasqueixas que todos manifestavam a respeito da falta de vocações. Depois de passar um olhar atento sobre todos os presentes, disse: “Vocês rezam e fazem o povo rezar pelas Vocações, e julgam que a oração é uma delegação para o Pai trabalhar no lugar de vocês?!”.

Também Bento XVI no dia mundial de Orações pelas Vocações declarou: “Quem diz que há falta de Vocações está fazendo uma acusação contra Deus! Pois, Deus jamais deixou de chamar, nós é que deixamos de trabalhar!”.

Nos dias de hoje o Papa Francisco vendo o afã de Sacerdotes e Religiosos (as) em solucionar tal desafio e indo buscar Vocacionados (as) de maioridade entre Universitários encalhados (talvez, alguns “filhos cangurus”) disse: “O problema das Pastorais Vocacionais não se resolve com inseminação artificial!”.

E nós dizemos que os Vocacionados são muito jovens e imaturos: por isso, é preciso deixá-los crescer até atingirem uma maturidade maior ou um ponto de Vocacionados mais decididos. E, nós esquecemos ou não percebemos o que Deus disse: “Antes que tu nascesses Eu te conhecia e te escolhi”. Portanto, não disse: – quando atingires a maioridade vou te escolher e chamar!Desta forma, não é no final da adolescência ou mais tarde que Deus lança a semente do chamado no coração do Vocacionado. Não parece falso o ditado, já conhecido: “é de pequenino que se cultiva o pepino”. Nenhuma semente germina, nasce, cresce e dá frutos de um dia pra outro. Em todas estas etapas a Vocação exige cuidados, não suporta pular etapas. Assim o cultivo Vocacional segue processos semelhantes ou análogos.

Na nossa Província, nestas últimas 2 ou 3 décadas, foi e está sendo vítima da negligência ou de certa dose de inoperância.  Promoção Vocacional está na condição de prima pobre e esquecida. Também, tivemos muitos Vocacionados, em certo tempo, e poucas Vocações e grande número de egressos (57). Fechamos Seminários Menores, resta apenas o Propedêutico. Alugamos o espaço do Propedêutico, de Cascavel- Pr., para uma Igreja Crente! Fechamos várias Casas de Formação. Estamos encolhendo em número de Professos, de Seminaristas Menores e Maiores. Além do campo econômico. As carências nestes campos não são fruto do acaso. De certa forma estamos vivendo um momento do qual fala Jeremias (14-18) que com espanto exclama: “Até o Profeta e o Sacerdote perambulam pela terra sem saber o que se passa!”. Vivemos num momento no qual: se os fatos incomodam, pior para eles. Afinal, estamos vivendo um tempo onde as pessoas buscam nos Meios de Comunicação Social e abraçam somente aquilo que “gostam” ou “aprovam”, não importando a realidade. Um boato ”crível”, já vale mais que um fato verdadeiro.

Além de tudo isto, onde se encontra nosso Carisma Fundante?! Parece que não caiu no nosso gosto ou ficou no esquecimento? Ou temos medo e fugimos de nossa missão de Palotinos? Vivemos uma “meia sola” da espiritualidade e do serviço de nosso Carisma Fundante para a dinamização e santificação da Igreja. Andamos com os pés em duas canoas. Os Carismas da Vida Consagrada são em vista de novas necessidades da Igreja em tempos diferentes. São como que novos Pentecostes. O Vaticano II insere a Vida Religiosa dentro da Igreja como um elemento essencial de seu mistério: “O estado dos que professam os Conselhos Evangélicos pertence à vida e santidade da Igreja e, por isso, deve ser incentivado e promovido por todos na Igreja (cf . CIC 574, 2 e LG, 44)”. E a Lumen Gentium reforça: “Os Conselhos Evangélicos (…) são um dom divino que a mesma Igreja recebeu do Senhor e com sua graça a conserva (n. 43)”. Desta forma seu ser constitui um carisma suscitado na Igreja e para a Igreja como sinal profético (LG, 31) e como dimensão escatológica (Mt 25,35ss). Portanto, “embora não pertença à estrutura hierárquica da Igreja, contudo, está inabalavelmente ligada à sua vida de santidade (LG, 44d)”.Esta afirmação da Lumen Gentium, do Vaticano II, teria sido um cochilo do Papa e dos Capitulares, ou não chegou aos nossos ouvidos ou por termos dificuldade em aceitar?

O serviço de nosso carisma e da nossa espiritualidade Palotina deve abranger e atingir toda Igreja, a Diocese inteira (onde estivermos inseridos) e não ficar enclausurados no espaço limitado duma Paróquia, onde a burocracia e a administração já são extremamente envolventes. Ao longo da história da humanidade surgem e surgirão diferentes profissões e inventos para o bem de todos. Assim na vida da Igreja, no passar de sua história, surgem e surgirão novos dons, novos carismas para o bem da Igreja e da santificação de todos seus membros. O Pentecostes não se encerrou lá em Jerusalém. Portanto, na Economia da Salvação são projetos novos para investimento em novos tempos. Já na Sociedade Civil cada profissional é identificado pelo serviço que presta pra toda sociedade, ou seja, para todos. Assim na Igreja cada Família Religiosa, cada Religioso (a) éidentificado pelo serviço ou Carisma que presta para todos.

Hoje, na Igreja está havendo uma enorme tendência de clericalizar os leigos, ou por sua vontade ou por imposição de algumas hierarquias da Igreja. Os Religiosos, também, estão sendo envolvidos por esta corrente. Quando um Religioso, por exemplo, um Palotino é elevado a assumir uma Paróquia como pároco ou vigário está assumindo um cargo da hierarquia da Igreja; não é um título honorífico. Fica a pergunta: agora ele é Palotino ou Diocesano? – Abraça um campo que não lhe diz respeito. Mas, há quem diga: “na minha Paróquia eu realizo a missão que Pallotti nos confiou”. Entretanto, nosso Fundador com sabedoria nos adverte: “A razão e a experiência nos ensinam que, ordinariamente, o bem que é feito isoladamente é escasso, incerto e de pouca duração, e que os mais generosos esforços dos indivíduos não conseguem nada de grande, também no plano moral e religioso, senão quando estão quando estão reunidos e ordenados a um objetivo comum (OO CC IV, 122)”.Certo dia um Bispo Palotino me falou: “Os Religiosos são uma raça em extinção por culpa de nós Bispos e dos Superiores das Congregações”. É aqui que está, também, a causa da queda de vocações. Porque o povo, em especial os jovens vocacionados e escolhidos por Deus irão identificar-se no caminho que Deus lhes propõe dentro do povo de Deus. Os jovens necessitam ver um Palotino, um Jesuita, um Franciscano… nos seustelônios, ou seja nos campos de suas atividades ou Carismas e no testemunho de suas respetivas espiritualidades. Também na formação de nossos seminaristas, no passado e no presente não houve e nem há uma formação, nem para ser palotino e nem para ser pároco ou vigário. Deixamos de ser Palotinos cem por cento. Na XXI Assembléia Geral (10/10/2016) no encontro com os Capitulares, o Papa Francisco disse que Vicente Pallotti: “Tornou-se um farol iluminador e inspirador na Igreja. O seu Carisma é um dom precioso do Espirito Santo, porque suscitou e suscita várias formas de vida apostólica e encoraja os fiéis a comprometer-se ativamente no testemunho evangélico”.

A Província Nossa Senhora Conquistadora sofre os medos ou fugas do profeta Jonas (1-4) ou do desvio de sua rota. Jonas recebeu de Deus a missão de se dirigir à cidade de Nínive para anunciar que suas maldades, onde não se sabia distinguir a mão direita da esquerda, haviam chegado até Deus. Jonas foge de Deus e toma um barco. Veio uma grande tempestade e todos os passageiros tomados de pavor invocavam seus deuses; e diziam uns aos outros: “Lancemos as sortes para saber por causa de quem nos acontece esta desgraça”. Lançadas as sortes, a sorte recaiu sobre Jonas. Encontrado dormindo tranquilo no fundo do navio e questionado confessou ser israelita e estar fugindo da missão que Iahweh lhe tinha confiado. E arrependido pediu para ser jogado no mar. Então, o mar se acalmou e ele puderam atingir a terra firme: “Os homens foram tomados por um grande temor para com Iaweh, ofereceram um sacrifício a Iaweh e fizeram votos (1, 16)”.

Após várias peripécias Jonas conseguiu se salvar. E novamente Deus lhe renova o pedido. Mas, outra vez, Jonas foge e monta uma tenda à sombra duma árvore, para ver o que aconteceria na cidade. Porém, a árvore seca e ele não suportando decide, finalmente, se dirigir para Nínive. Percorre a cidade e anunciaque a cidade será destruída por Deus se ela não se converter… E acontece uma grande surpresa: “Os homens de Nínive creram em Deus”. Todos se arrependeram e mudaram de vida. “E Deus arrependeu-se do mal que ameaçara fazer-lhes e não fez (3, 10)”.

Julgo não estar longe da verdade em dizer que a nossa Província está ignorando ou fugindo de sua missão à semelhança de Jonas. Qual é a tenda e a árvore sob as quais estamos acampados e olhando para Pallotti para ver o que ele fará? – A cidade de Nínive é a Diocese (ou Dioceses) para onde nosso fundador nos envia, e não às Paróquias que nos abrigam. Todos os anos e anos inteiros a gente ouve as queixas das Dioceses e da própria CNBB que falta formação para os leigos e batizados que andam a margem da Igreja ou dela saindo. Vivemos uma situação semelhante a do irmão do Filho pródigo (filho canguru), que trabalhava, embora em casa, para o pai e não com o pai. Viveu na condição de empregado do pai.Pallotti, nosso pai, deve estar se sentindo numa situação semelhante em relação a nós, seus filhos.

Qual a missão de um casal que constitui uma família? – Sem dúvida, em primeiro lugar, viver e testemunhar a fidelidade de seu amor. Depois, gerar filhos para a Sociedade e a Igreja. E se assim não viver, torna nula sua missão, nulo seu matrimônio e sem razão de existir. De forma semelhante se uma Família Religiosa não vive, não testemunha sua espiritualidade e não presta o serviço do seu Carisma Fundante para dinamização e santificação da Igreja; e não gera vocações, torna nulo seu Carisma ou novo dom do Espírito Santo recebido. E, esta situação semelhante nós vivemos hoje. Aqui está, também, a razão da diminuição das vocações.

Os Palotinos quando vierem ao Brasil, vieram para dar assistência religiosa aos imigrantes italianos e alemães, sem descuidar dos demais habitantes do Rio Grande do Sul. A partir de algumas Paróquias atingiram quase metade do Estado e Dioceses inteiras, tendo como centro de espiritualidade, retiros, orientação e formação religiosa a Casa de Retiros; hoje terceirizada ou alugada para outros fins. Portanto as poucas Paróquias assumidas foram por circunstâncias históricas da época. Portanto, não vieram para se enclausurar em Paróquias. O Vaticano II, através do seu documento Lumen Gentium veio recordar aos Religiosos os seus verdadeiros campos de presença e atuação na Igreja. Até agora não se está vendo um “aggiornamento”, nem das Congregações e nem dos Bispos. E a formação em nossos Seminários não está preparando seus formandos nem para serem Religiosos e nem Diocesanos. O Vaticano II não teve repercussão na Igreja até agora. Pallotti deve estar esperando o momento de dar a sua benção prometida: “ESTA MÍNIMA CONGREGAÇÃO SERÁ ABENÇOADA (PALLOTI)”

Por Pe. Marcos João Miszewski – SAC

 

 

 

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